Infraestrutura conhecida como X-Road permite troca segura de informações entre órgãos públicos e reduz etapas nos serviços ao cidadão
A interoperabilidade é um dos pilares do governo digital da Estônia. Na prática, permite que diferentes órgãos compartilhem dados de forma estruturada e segura, mesmo operando sistemas distintos. Esse modelo responde a um problema comum: a fragmentação das informações.
Em muitos governos, cada órgão mantém sua própria base de dados, sem conexão com outras áreas. Isso gera inconsistências, retrabalho e exige que o cidadão informe os mesmos dados repetidamente ao acessar serviços. Na Estônia, a estratégia foi diferente.
Os dados continuam sob responsabilidade dos órgãos que os produzem. O que foi estruturado foi a forma de acesso entre instituições, com regras claras, segurança e padronização.
É nesse contexto que surge o X-Road.
A infraestrutura conecta os sistemas públicos e permite a troca de dados sem a necessidade de integrações individuais entre cada órgão. Com isso, a comunicação se torna mais simples, escalável e confiável.
Na prática, o funcionamento segue três princípios:
1. Acesso direto à base do órgão responsável, sem duplicação de dados;
2. Compartilhamento com autorização e justificativa;
3. Registro de todas as consultas para auditoria e rastreabilidade.
Esse modelo reduz etapas, melhora a qualidade das informações e elimina redundâncias. Também, impacta diretamente o desenho dos serviços públicos. Com sistemas integrados, os serviços deixam de ser organizados por órgão e passam a considerar a jornada do cidadão, reduzindo exigências e simplificando processos. A interoperabilidade também cria base para o uso mais avançado de dados.
Soluções como automação e inteligência artificial dependem de informações organizadas e acessíveis. Sem essa estrutura, essas aplicações tendem a ter alcance limitado.
Representação do uso de inteligência artificial para automação e apoio à tomada de decisão no setor público.
Do salto do tigre ao salto da IA
A transformação digital da Estônia foi construída de forma gradual ao longo de décadas. Logo após recuperar sua independência, o país lançou, em 1996, o programa Tiigrihüpe (Tiger Leap), com foco na informatização das escolas e na ampliação do acesso à internet. O objetivo era preparar a população para uma sociedade cada vez mais digital, criando as bases educacionais necessárias para as transformações futuras.
Nos anos 2000, a Estônia iniciou a estruturação de sua arquitetura digital com o lançamento do X-Road, em 2001. A plataforma permitiu a interoperabilidade entre diferentes bases de dados governamentais, possibilitando que órgãos públicos compartilhassem informações de forma segura e eficiente. Em 2002, a introdução do cartão de identidade digital (ID Card) permitiu que os cidadãos acessassem serviços públicos online e utilizassem assinaturas digitais com validade jurídica, impulsionando soluções como a declaração de imposto de renda online e, posteriormente, o voto pela internet.
Com a consolidação dessa infraestrutura, o país adotou o princípio Once-Only, segundo o qual o governo não deve solicitar ao cidadão uma informação que já esteja disponível em outra base de dados pública. A partir dessa lógica, novos serviços digitais foram desenvolvidos, incluindo prontuários médicos eletrônicos, receitas digitais e o programa e-Residency, lançado em 2014 para permitir que empreendedores de qualquer lugar do mundo utilizassem parte da infraestrutura digital estoniana.
Atualmente, a Estônia avança para uma nova etapa de sua transformação digital, marcada pelo uso de inteligência artificial. Iniciativas como o Kratt AI e o conceito de Bürokratt buscam integrar serviços públicos em uma experiência única para o cidadão, utilizando assistentes virtuais capazes de oferecer serviços de forma proativa, antecipando demandas e simplificando ainda mais a interação entre governo e sociedade.
Esse processo mostra que a interoperabilidade não surge como um ponto isolado, mas como parte de uma construção progressiva.
No Brasil, esse ainda é um desafio relevante. A presença de sistemas isolados, a falta de padronização e a dificuldade de integração entre órgãos dificultam a construção de serviços mais conectados. Avançar nesse cenário envolve decisões institucionais, como definição de padrões, estruturação de governança e alinhamento entre diferentes entidades.
A experiência estoniana indica que a interoperabilidade não é uma camada complementar, mas uma base estrutural para o funcionamento do governo digital.


